A sinfonia de Lou Reed

25/11/2010

Quando anunciaram que Lou Reed faria show do Metal Machine Music no Brasil, boa parte dos fãs ficou um tanto decepcionada. O álbum de 1975 foi considerado na época de seu lançamento o pior disco do mundo. Composto só de noise, sem vocais, até chegou a ser recolhido das lojas. Ouvi muito fã comentando que era um desperdício um músico tão conceituado, com canções tão maravilhosas, vir ao país só para fazer barulho na guitarra. Para a minha própria surpresa – pois também esperava ouvir apenas noise sem sentido -, o show de Lou Reed foi não só um dos mais bonitos e profundos que já vi na vida, como um dos momentos mais preciosos que já vivi com música. Em poucos minutos de show, me convenci de que não poderia haver álbum melhor para se assistir ao vivo do que esse.

A idéia que a maioria tem de show é de algo bem ensaiado, organizado, amarrado. Algo que seja uma cópia o mais fiel possível do disco que você tanto gosta, das canções que você já sabe de cor. Mas, diferentemente de assistir a um artista reproduzindo um disco, quem estava no Sesc Pinheiros nos dias 20 e 21 de novembro teve a oportunidade única de ver Lou Reed em meio a seu processo criativo, experimentando à vontade, como se estivesse criando em estúdio. Ele orquestrava seus músicos, trocava de guitarra várias vezes, testava pedais e botões, mas nunca de forma aleatória. Espaços de criações se alternavam com o de execuções extremamente técnicas e planejadas. Harmonias, ritmos e texturas brincavam com intensidades e vazios, prendendo a atenção até de criancinhas que vi na platéia. Tudo fluía de forma tão singela que o resultado final era de pura paz no ambiente. Mesmo nos momentos de noise, a sensação era de calma e tranquilidade.

A chance de ver seu ídolo deixando sua sensibilidade comandar, ali diante dos seus olhos, para mim valeu mais do que uma execução completa dos discos que tenho em casa do Velvet Underground. Com os olhos marejados, acompanhava cada movimento de Lou Reed tendo a consciência de que aquele espetáculo era único. Que aquela sequência de acordes talvez não se repetisse em uma próxima improvisação. E o mais importante: que tudo aquilo era resultado do estado mental do músico naquele momento, dos sentimentos que ele queria ou precisava passar naquela hora. Lou Reed estava se comunicando com a platéia do jeito mais sincero que um músico pode se comunicar: simplesmente se deixando levar.

No final, ele levantou com sua guitarra e ficou parado encarando o público, diante dos aplausos, com uma presença de palco de uma humildade quase sobrenatural. Agradeceu a todos os presentes e mandou um bis que funcionou como o fechamento perfeito para o show: uma canção do clássico disco Velvet Underground & Nico, chamada “I’ll be your mirror”, que fala basicamente de amor próprio, de acreditar em você mesmo, o tipo de mensagem ideal para quem nunca foi lá muito compreendido passar aos outros, como um hino de quem precisa seguir em frente, fazendo o que realmente acredita. E então foi o público que se tornou o espelho dele, cantando “I’ll be your mirror reflecting what you are”, retribuindo com muitos aplausos a sua apresentação. Tive a sorte, depois da canção, de segurar em sua mão e agradecê-lo olhando nos olhos. A sensação era de que ele estava tão em transe quanto boa parte da platéia. Tão em paz que nem parecia mais fazer parte desse mundo.

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Resenha publicada no site Mondo Bacana.

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